Projeto

Quem somos os que aqui estamos?

castro laboreiro e lamas de mouro

Castro Laboreiro & Lamas de Mouro

Herdeiros do esquema de pensamento do Estado-Nação, nunca se nos ocorre perguntar quem somos nós quando alguém assim nos designa em modo colectivo. Somos os portugueses, os melgacenses, aquilo que cada um quiser dizer consoante reza no Cartão de Cidadão – ou não. Quando estamos emigrados, estrangeiros noutra terra e descolados da que foi nossa, a identidade vacila, a ideia de comunidade dissolve-se. Pessoa dizia que a sua pátria era a sua língua, mas há muito quem duvide, como Natália Correia, e nem sequer reconheça a mátria na pátria, a primeira construída por afectos – a motherland , matriz primeira -, a outra mais impessoal ou institucional.

não se sabe o que seja a mátria, a terra ou a língua-mãe

Agora que tudo parece deslimitado – as fronteiras políticas permeáveis, o território aberto, a diluição na Europa, no mundo, a circulação intensa e frenética da informação, das imagens, dos valores -, não se sabe o que seja a mátria, a terra ou a língua-mãe.

Melgaço, em especial, é uma dessas terras. Como em muitos outros lugares, os que aqui residem agora são ínfima parte dos que aqui nasceram e há muitos que nascem algures e que às vezes dizem que são de cá. Não é para trocar palavras. É apenas pela razão simples de que a definição de um grupo de pertença é a matéria fundamental para se saber quem somos “nós” e que coisas podemos fazer juntos. É isso que define a esfera pública e o sentido político da comunidade.

Noutros tempos, a maioria nascia e morria na mesma terra. Eram dali como as árvores e as pedras e isso bastava. Quase tudo o que ali se passava se explicava pelo os que dali faziam ou eram. Agora o espaço geográfico e as suas geografias político-administrativas perderam esta capacidade de fazer coincidir sociedade e território.

cidadãos flutuantes, gente de muitas terras

Faz sentido por isso questionar quem somos os que aqui estamos, porque no meio dessa demanda aparecerão muitos, muitos outros que aqui de alguma forma pertencem pelo que sentem, fazem ou são. Cidadãos flutuantes, gente de muitas terras que não raro por cá se cruza ou se faz sentir.

O projeto Quem somos os que aqui estamos? em 2020 incidirá na União das Freguesias de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro, do concelho de Melgaço, e terá visibilidade através de:

  • Registo audiovisual – Fotografia Faladas
  • Uma exposição de fotografia documental, a inaugurar na Casa da Cultura de Melgaço, durante o MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço
  • Um catálogo sobre a exposição de fotografia documental
  • A recolha e digitalização de fotografias de álbuns familiares de habitantes de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro
  • Uma exposição de fotografia a partir dos álbuns familiares, a inaugurar na freguesia de Castro Laboreiro
  • Uma publicação sobre o trabalho realizado

Produzido pela Associação AO NORTE, este projeto será coordenado por Álvaro Domingues, terá produção executiva de Rui Ramos e conta com colaboração de Albertino Gonçalves, Carlos Eduardo Viana, Daniel Maciel, Miguel Arieira, Daniel Deira e João Gigante.

prado

Prado & Remoães

Entre a Vila e as termas do Peso, pelas terras baixas do vale do rio Minho, Prado e Remoães constituem-se como um conjunto de lugares espalhados ao longo de três vias: a mais antiga, provavelmente de origem romana, liga igrejas paroquiais e a velha capela de Stº Amaro; a segunda é uma estrada moderna por onde, no séc. XIX, se pensou construir a linha férrea de Monção a Melgaço; a terceira é uma via rápida recente. Com muitos pontos de ligação, as três são cruzadas por vias de menor importância no sentido perpendicular do rio.

Estamos em plena “ribeira” onde é ainda clara a arquitectura de uma paisagem feita de campos e socalcos, muros e caminhos, terras de cultivo onde a água de rega chegava à leira mais pequena onde se cultivava o milho e a vinha se dispunha em latadas na estrema das parcelas. O rio Minho corre encaixado entre penedos e pesqueiras e, por vezes, depósitos de coios, os seixos de pedras polidas que a corrente foi moldando. Ainda há lampreias. Nas margens abruptas e no primeiro patamar de terra vermelha e pedregosa, estão os baldios, terras de mato e pastagem por longos tempos já passados. Hoje há hotéis, centros hípicos, equipamentos desportivos e escolas superiores.

Porque foi mais a gente do que a terra durante séculos de agricultura de subsistência, aqui também se emigrou, particularmente para o Brasil e, mais tarde, para França ou mais além. Da época de ouro das termas, ficaram algumas casas de veraneio e outras também de visitantes ocasionais. A julgar pelo que se vê, à emigração e ao desaparecimento da agricultura tradicional, seguiu-se o plantio do Alvarinho, mais importante na paisagem do que na economia local. Nem tudo é o que parece. Local é apenas o lugar onde localizamos o que vemos ou o que nos disseram que ali está. Se estendermos o assunto, a geografia será outra, bem mais dilatada. Vão multiplicar-se espaços e fronteiras visíveis e invisíveis, vidas que se cruzam, surpresas, coisas menos permanentes do que antes foram.

Fica quase tudo por dizer nas palavras breves. A terra é pequena mas é variada a gente.

Álvaro Domingues

O projeto Quem somos os que aqui estamos? incidiu em 2019 na União de Freguesia de Prado e Remoães, do concelho de Melgaço.

Na edição do MDOC – Festival Internacional de Documentário de Melgaço, de 2020, será promovida uma edição de uma publicação sobre o trabalho realizado.

Produzido pela Associação AO NORTE, este projeto é coordenado por Álvaro Domingues, tem produção executiva de Rui Ramos e conta com colaboração de Albertino Gonçalves, Carlos Eduardo Viana, Daniel Maciel, Miguel Arieira, Daniel Deira, João Gigante e Ivo Poças Martins.